Quem não costuma prestar atenção a nenhuma vitrine de loja de moda pode imaginar que aquela bolsa comportada, com alça de corrente e costura de losangos, é coisa do passado.
Engano. Basta olhas as fotos das revistas de celebridades para ver que a legendária bolsa Chanel está vivendo mais uma de suas muitas vidas – autêntica, nos bracinhos das ricas e famosas, ou assumidamente copiada, para o resto da humanidade. Fazer uma bolsa com alça de metal flexível, que corre em furos arrematados por ilhoses, parece coisa óbvia, mas ninguém pensou nisso antes de mademoiselle Chanel.
“Cansada de carregar minha bolsa na mão, e perdê-la, decidi adotar uma alça e pendurá-la no ombro”, disse ela sobre a gênese da 2.55, como a bolsa de luxo mais famosa do mundo é conhecida pelo pessoal da moda. O número faz referência à data em que foi oficialmente lançada, fevereiro de 1955, um ano depois do retorno de Chanel às passarelas, encerrada sua temporada de recolhimento na Suíça por simpatia, se não pelo nazismo em geral, pelo menos por um certo oficial alemã, durante a ocupação.
A 2.55 jamais saiu de linha e, como Karl Lagerfeld à frente da maison, virou uma fonte inesgotável de faturamento, em materiais, acabamento e detalhes de infindável variedade, Quando completou 50 anos, a bolsa foi relançada do jeitinho original.
Pendurá-la em ombros de celebridades jovens foi o passo seguinte para espanar o ar de coisa do passado. Daí nasceu a composição combinada mais contemporânea: a bolsa clássica usada com as roupas bem informais, de preferência jeans, como faz a atriz americana Sienna Miller, que usa a sua até para ir ao supermercado. A cantora Lily Allen, com uma coleção de todas as cores, também confere modernidade ao modelo. Victoria Beckham de vez em quando trai a Hermès, grife das suas queridas e caríssimas bolsas Birkin, e sai de correntinha na mão. Ou seguidora da Hermès, Carla Bruni, primeira-dama da França, apareceu em companhia de Michelle Obama com uma Chanel lilás, dotada de providencial protetor de ombros.
Se a imitação é o maior elogio que se pode fazer, a bolsa Chanel de correntinha ganha todas: é difícil entrar em uma loja brasileira hoje sem encontrar alguma variação do modelo, desde ma marca de topo como a Lenny e Cia (R$ 1690,00) até a popular C&A (de couro sintético, feita na China, por R$79,90). “Não quis mudar nada, para não descaracterizar. E é das bolsas que mais vendem. Neste inverno, todo mundo vai ter a sua Chanel”, afirma Arnaldo Silva, consultor de estilo da rede Shoestock. Reeditar, reler e homenagear são os outros nomes do jogo. “A Chanel é um clássico, um excelente investimento. Fizemos uma releitura, que reflete a nossa cara”, diz a carioca Constança Basto, que criou a bolsa de cetim colorido para a ala jovem (R$160,00) e em versão mais tradicional (R$648,00).
A fabricação da bolsa original, com pelica finíssima costurada em matelassê, forro num tom de vinho amarronzado, fecho de metal simples (os C cruzados do lado de fora vieram mais tarde, na era dos logos berrantes) e corrente entrelaçada com uma tira de couro, tem 180 etapas, nas quais trabalham 340 pessoas, a maioria delas há décadas na linha de produção da Chanel.
Não adianta querer saber como se produz o efeito acolchoado – uma simples espuma nas cópias, um segredo de estado na Chanel. “E a forma como viramos a bolsa pelo avesso para fazer a costura também é segredo”, informa Bruno Trippe, diretor de produção. “Naturalmente, o forro tem de ser perfeito – mademoiselle Chanel exigia que o interior da bolsa fosse tão bonito quanto o exterior."
Na Chanel de São Paulo, o modelo pequeno bate quase nos R$8 mil. O grande, com zíper extra, R$10 mil.